Projeto social utiliza o esporte para estimular disciplina, confiança e autonomia entre alunas e levar os aprendizados para a escola e a vida pessoal
Antes de conquistar o ouro olímpico nos Jogos do Rio, em 2016, a judoca Rafaela Silva deu os primeiros passos no esporte em um projeto social na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. A história da campeã mundial e olímpica mostra como o acesso ao esporte pode abrir caminhos e transformar trajetórias. Foi nesse mesmo princípio que nasceu o projeto Mulheres que Lutam, que hoje atende meninas de 6 a 18 anos em Santos, e utiliza o judô não apenas para ensinar uma modalidade esportiva, mas também como ferramenta de desenvolvimento, disciplina e confiança.
Para as professoras, a transformação acontece de forma gradual e ultrapassa o ambiente esportivo. “O projeto contribui para a formação das alunas de maneira integral, utilizando o judô como uma ferramenta de educação, disciplina, convivência e fortalecimento da autoestima. No aspecto pessoal, percebemos principalmente o aumento da autoconfiança, da autonomia e da capacidade de lidar com frustrações e dificuldades”, explica Andrea Berti, coordenadora do projeto e técnica da Seleção Brasileira Feminina de Judô.
Entre as participantes está Alice Beatriz, de 10 anos. A aluna desenvolveu um forte vínculo com as colegas e com o esporte. “Desenvolvi um amor muito forte por lutar”, conta. Para a mãe, Alessandra Simões, a participação no projeto também trouxe mudanças para a rotina da filha. “Ela se tornou mais responsável após o início do projeto”, afirma.
A metodologia também busca fazer com que as meninas assumam responsabilidades e reconheçam o próprio potencial. “O judô é a nossa principal ferramenta, porque seus valores estão diretamente relacionados à proposta do projeto: respeito, disciplina, coragem, autocontrole, amizade e superação. Procuramos também dar responsabilidades às alunas, estimulando que sejam protagonistas da própria trajetória”, destaca Rosanne Aguiar, professora do projeto.
Um dos principais sinais dessa evolução aparece na maneira como as participantes passam a enfrentar desafios. “Um dos momentos que mais evidencia essa transformação é quando percebemos que elas deixam de esperar que alguém diga que são capazes e passam a acreditar nisso por si mesmas. Meninas que inicialmente tinham dificuldade para se expressar passam a levantar a mão, dar sua opinião, assumir responsabilidades, ajudar outras colegas e enfrentar desafios com muito mais segurança”, completa Camila Valente, professora do projeto.
A mudança também é percebida pelas famílias. Mariah Vitória, de 7 anos, participa das atividades e, segundo o responsável, André Luis, vem apresentando avanços desde que começou no projeto. “Ela está mais esperta e aprendendo muitas coisas boas, está fazendo super bem”, conta.
Assim como aconteceu com Rafaela Silva, o objetivo não precisa estar necessariamente na formação de uma atleta de alto rendimento. A proposta é fazer com que o esporte seja uma ferramenta para que cada menina desenvolva habilidades que possam ser levadas para a escola, para a família e para os próprios projetos de vida.