Infectologista pediátrica alerta que grandes aglomerações favorecem a circulação de vírus e reforça a importância da prevenção para aproveitar os jogos com segurança
A contagem regressiva para a Copa do Mundo costuma ser marcada por expectativa, confraternizações e encontros entre amigos, familiares e colegas de trabalho. Seja em bares, restaurantes, fan fests ou reuniões em casa, o torneio mobiliza milhões de pessoas em torno de uma paixão em comum. Mas, junto com a festa, especialistas alertam para um fator que não entra em campo, mas costuma ganhar força durante grandes eventos: a transmissão de doenças respiratórias.
Diversos estudos científicos já demonstraram que aglomerações facilitam a circulação de vírus respiratórios. Um estudo publicado na revista científica Current Opinion in Pulmonary Medicine, intitulado Transmission of Respiratory Tract Infections at Mass Gathering Events, concluiu que eventos que reúnem grandes concentrações de pessoas aumentam o risco de disseminação de infecções respiratórias transmitidas por aerossóis e gotículas.
O estudo mostra ainda que esse tipo de ambiente favorece a circulação de vírus entre indivíduos vindos de diferentes regiões, ampliando a cadeia de transmissão. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) considera eventos esportivos internacionais, como a Copa do Mundo, exemplos clássicos de grandes aglomerações, justamente pelo potencial de concentração de pessoas em um mesmo local e período.
Para a infectologista pediátrica Carolina Brites, isso não significa abrir mão dos momentos de celebração, mas sim adotar medidas simples para reduzir os riscos.
“É importantíssimo a gente ter essas confraternizações para a nossa saúde mental, física e para a socialização. Muitas vezes, porém, acabamos esquecendo das vulnerabilidades de saúde que estão envolvidas. Por isso, é fundamental manter uma boa qualidade de vida, alimentação saudável, hidratação adequada e realizar as prevenções vacinais antes dessas exposições”, destaca.
A médica explica que a Covid-19 não é a única preocupação nesses períodos. Diversos outros vírus encontram nas aglomerações um ambiente ideal para se espalhar.
“Além da Covid-19, temos influenza, parainfluenza, adenovírus, rinovírus e o vírus sincicial respiratório, que merece atenção especial em crianças menores de dois anos e idosos. São agentes que apresentam grande facilidade de transmissão quando as pessoas estão em ambientes lotados”, explica.
Outro fator frequentemente negligenciado é a ventilação dos ambientes fechados. Durante os jogos, é comum que bares, restaurantes e até meios de transporte operem com alta ocupação, aumentando a proximidade entre as pessoas.
“A ventilação inadequada facilita a transmissão dos vírus. O ideal é que haja circulação constante de ar, com portas e janelas abertas sempre que possível. Uma boa ventilação ajuda a reduzir a concentração de partículas virais no ambiente e, consequentemente, o risco de transmissão”, orienta.
A preocupação encontra respaldo na literatura científica. Pesquisas mostram que ambientes fechados e mal ventilados favorecem a permanência de partículas respiratórias suspensas no ar, aumentando a exposição dos frequentadores. Estudos também apontam que melhorias na ventilação podem reduzir significativamente o risco de transmissão de vírus respiratórios.
Embora as atenções costumam se voltar para medidas de proteção durante os eventos, Carolina reforça que a preparação deve começar antes mesmo do apito inicial. “O ideal é sempre se prevenir. Se já sabemos que teremos um período com mais aglomerações, precisamos nos preparar. Isso inclui alimentação equilibrada, hidratação, prática regular de atividade física e conferência da carteira de vacinação. Muitas vezes esquecemos que adultos também precisam se vacinar, não apenas as crianças.”
A especialista lembra ainda que pessoas mais vulneráveis, como idosos, bebês e indivíduos com doenças crônicas, merecem atenção especial durante esse período. Quando apresentam sintomas respiratórios, é recomendável evitar exposições desnecessárias e ambientes muito cheios.
“Não basta apenas se expor e curtir intensamente. A prevenção é um fator importantíssimo para que possamos aproveitar esses momentos de forma prazerosa e sem intercorrências relacionadas à saúde”, ressalta.
Em um evento capaz de mobilizar torcedores em todos os cantos do planeta, o equilíbrio entre celebração e responsabilidade pode ser o melhor esquema tático fora das quatro linhas. Afinal, cuidar da saúde também faz parte da torcida.
Sobre Carolina Brites
Carolina Brites concluiu sua graduação em Medicina na Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES) em 2004. Especializou-se em Pediatria pela Santa Casa de Santos entre 2005 e 2007, onde obteve o Título de Pediatria conferido pela Sociedade Brasileira de Pediatria.
Posteriormente, especializou-se em Infectologia infantil pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e completou uma pós-graduação em Neonatologia pelo IBCMED em 2020. Em 2021, concluiu o mestrado em Ciências Interdisciplinares em Saúde pela UNIFESP.
Atualmente, é professora de Pediatria na UNAERP em Guarujá e na Universidade São Judas em Cubatão. Trabalha em serviço público de saúde na CCDI – SAE Santos e no Hospital Regional de Itanhaém. Além disso, mantém um consultório particular e assiste em sala de parto na Santa Casa de Misericórdia de Santos. Ministra aulas nas instituições de ensino onde é professora.
Carolina Brites CRM-SP: 115624 | RQE: 122965
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