Histórias de superação reforçam papel da remada e da conexão com o mar na reconstrução da saúde mental

Após enfrentar a perda de um filho e a cegueira provocada por um assalto, praticantes de esportes de remo encontraram no mar um novo propósito de vida

Em um momento em que os debates sobre saúde mental ganham cada vez mais espaço na sociedade, histórias de pessoas que encontraram no esporte um caminho para reconstruir suas vidas ajudam a mostrar que, muitas vezes, a transformação começa em um simples convite. Nas diferentes modalidades de remada, que crescem em todo o Brasil e reúnem milhares de praticantes em contato direto com o mar e a natureza, relatos de superação têm se multiplicado e revelam como a prática pode ir muito além dos benefícios físicos.

Para o fundador da Associação Brasileira de Canoas Havaianas (ABRACHA), Fábio Paiva, essa percepção surgiu ao longo de décadas acompanhando a evolução do esporte no país. Conhecido por ajudar a estruturar e difundir a modalidade em território nacional, ele afirma que, com o passar dos anos, passou a enxergar um impacto ainda mais profundo nas pessoas que encontravam na remada uma nova forma de encarar a vida.

“Eu comecei a receber inúmeros testemunhos de pessoas que tiveram suas vidas transformadas. Entendi que o esporte funciona como uma terapia completa. Hoje eu digo que a coisa mais importante da nossa vida é a saúde mental. Sem ela, todo o resto perde sentido. E eu vejo que a remada ajuda as pessoas justamente a encontrarem esse equilíbrio”, afirma.

Entre essas histórias está a do terapeuta holístico e quiropraxista Fabiano de Almeida Affonso, morador de Angra dos Reis (RJ). Apaixonado pela canoagem oceânica desde 1998, ele construiu uma trajetória vitoriosa no esporte, chegando ao título de campeão brasileiro. Mas sua vida mudaria drasticamente em 2012, quando foi vítima de um assalto e levou um tiro na cabeça.

A bala atravessou seu rosto, provocando a perda total da visão. Além disso, Fabiano já possuía deficiência auditiva severa. Para muitos, aquele poderia ser o fim de uma trajetória esportiva. Para ele, tornou-se o início de um novo desafio.

“Quando meus amigos me convidaram para voltar a remar, achei impossível. Eu usava a visão para tudo dentro da canoa. Sem enxergar e com audição limitada, parecia que não havia mais como continuar”, relembra.

Mas a desistência nunca foi uma opção. Após inúmeras tentativas, adaptações e experimentos criados por ele mesmo, Fabiano encontrou maneiras de voltar ao mar. Desenvolveu sistemas de comunicação, aprimorou técnicas de orientação e passou a remar guiado por parceiros.

O resultado ultrapassou qualquer expectativa. Hoje, acumula 11 títulos brasileiros e dois títulos mundiais de canoagem oceânica, conquistados após perder completamente a visão.

Mais do que as medalhas, ele destaca a mudança de mentalidade que a remada proporcionou.

“As pessoas não podem ficar esperando que alguém crie oportunidades para elas. É preciso criar as próprias oportunidades. Se eu tivesse esperado, estaria limitado a uma cama até hoje. As dificuldades existem para nos impulsionar a ir mais longe, não para nos fazer desistir.”

Outra história que ilustra o poder transformador da remada é a do empresário Fernando Antônio Costa Martins. Há cerca de um ano e meio, ele enfrentava o momento mais difícil de sua vida após a perda de um filho.

Sem ânimo para se exercitar, emocionalmente abalado e enfrentando um processo acelerado de ganho de peso, Fernando foi convencido por um amigo a experimentar uma remada durante uma viagem a Salvador.

“Eu não tinha interesse algum. Na verdade, fui praticamente arrastado para aquela primeira remada. Mas a sensação que senti naquele dia foi tão forte que, quando voltei para Maceió, procurei imediatamente um lugar para continuar praticando.”

Na época, ele havia ganhado cerca de 30 quilos em poucos meses e enfrentava uma profunda apatia emocional. Aos poucos, a rotina de treinos começou a mudar não apenas sua condição física, mas também sua relação com a vida.

“Foi na cadência das remadas que a dor da perda do meu filho foi encontrando um lugar dentro do meu coração. A frase ‘Remar Cura’ se encaixa perfeitamente na minha história.”

Hoje, além de competir em provas pelo Brasil, Fernando treina regularmente em embarcações individuais, conta com acompanhamento profissional e recuperou o entusiasmo que havia perdido.

“A remada me devolveu a vontade de viver, a vontade de me desafiar e de buscar a minha melhor versão.”

Para Fábio Paiva, histórias como as de Fabiano e Fernando ajudam a explicar por que a remada tem atraído pessoas de diferentes idades, profissões e realidades.

“Existe algo muito especial quando você está no mar, em contato com a natureza, compartilhando objetivos dentro de uma embarcação. Isso muda valores, muda hábitos e muda perspectivas. A remada acaba se tornando uma verdadeira boia de sobrevivência emocional para muita gente.”

Segundo ele, o objetivo agora é dar visibilidade a exemplos que possam inspirar outras pessoas que enfrentam momentos difíceis.

“Todos nós passamos por desafios. O que essas histórias mostram é que a forma como encaramos esses desafios pode mudar completamente o resultado. Quando alguém vê uma pessoa que perdeu a visão se tornar campeã mundial ou um pai que transformou a dor do luto em motivação para viver novamente, percebe que a transformação é possível. Pessoas inspiram pessoas.”

Em um país onde os índices de ansiedade, depressão e sofrimento emocional seguem crescendo, os relatos de Fabiano e Fernando reforçam uma mensagem simples, mas poderosa: às vezes, um novo rumo pode começar com uma remada, um desafio e a decisão de seguir em frente.

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